A história do
jornalismo é totalmente clara sobre o que diferencia os jornais
importantes dos medíocres: a qualidade de sua propriedade.
Repórteres e editores podem discordar, mas não importa o
quão esplêndida seja uma equipe editorial: um dono muito
tímido, muito indiferente ou muito pão-duro produzirá
um jornal, na melhor das hipóteses, mediano. (Russel Baker, jornalista
americano) No dia 4 de agosto de 1914, cinco exércitos alemães,
com cerca de 1,5 milhão de soldados, invadiam a neutra Bélgica
e a beligerante França. Era o início da chamada Grande Guerra,
que envolveria dezenas de países e escandalizaria a humanidade
por seu saldo aterrador: 8 milhões de mortos (há quem contabilize
13 milhões) e 21 milhões de mutilados. O conflito, que muitos
imaginavam de curta duração, durou mais de quatro anos e
nele se misturaram técnicas militares antigas com técnicas
modernas na arte de matar. Os litigantes recorreram, entre outras armas,
ao abrasador gás de mostarda, aos aviões, aos dirigíveis
(os zepelins), aos submarinos e aos tanques.
A Grande Guerra ocupou, durante toda a sua duração, a atenção
do jornalista Julio Mesquita. Em boletins semanais, sempre às segundas-feiras,
ele montou o quebra-cabeça do conflito nas páginas do Estado.
Por iniciativa de seu bisneto, Ruy Mesquita Filho, este amplo painel foi
reunido em quatro volumes de A Guerra, que chegam agora às livrarias.
E, de terça-feira até o dia 8 de dezembro, o Sesc Pompéia
(Rua Clélia, 93) hospeda uma exposição com as fotos
do livro.
Julio Mesquita combatia o militarismo alemão, ao qual atribuiu
a responsabilidade pela deflagração do conflito. Em seu
boletim de 21 de dezembro de 1914, ele assim explicou a posição
de seu jornal sobre o que acontecia no Velho Mundo: "Não falta
quem atribua à má vontade de O Estado contra os alemães,
ou pelo menos à parcialidade, o fato de nos guiarmos nestes despretensiosos
comentários pelas informações recebidas de Paris
e, principalmente, pelas que dia a dia o governo francês fornece
ao mundo.
Atribuir a O Estado má vontade contra os alemães é
injustiça. O Estado não nega as suas simpatias pelos Aliados,
mas já disse, e repete, que a essas simpatias não corresponde
nenhuma antipatia pelos súditos do kaiser, cujas excelentes qualidades
de raça e de educação intelectual, comercial e industrial
não tem cessado de enaltecer. O Estado simpatiza com os aliados,
não porque antipatize com os alemães, mas porque diverge
visceralmente da política autoritária e militarista que
desviou a Alemanha de sua luminosa missão e produziu esta guerra
odiosa. Contra essa política, sim, temos toda a má vontade,
onde quer que ela se implante ou firme, na Alemanha ou em qualquer outro
país, inclusive o nosso."
Surge o projeto
Ruy Mesquita Filho, o idealizador e editor dos quatro volumes de A Guerra,
diz que tudo começou quando, pesquisando sobre a história
de O Estado, com uma equipe de colaboradores, deparou com os artigos sobre
a 1.ª Guerra Mundial. "Eu sabia que tinha sido o maior trabalho
jornalístico de Julio Mesquita." No revéillon de 2000,
Ruy levou, para ler em suas férias, o livro publicado à
epoca por amigos de Julio Mesquita, à revelia do autor, contendo
os textos que escrevera sobre o primeiro ano da guerra. Ainda existem
cinco exemplares deste livro e sua leitura encantou o bisneto. Decidiu,
então, recolher todo o material e editá-lo. "Ele não
se ateve apenas à descrição do acontecimento, que
por si só já era uma tarefa muito difícil de ser
feita.
Naquela época, não se tinha muita informação.
Ele dispunha apenas de pequenos telegramas dispersos. Uns falavam sobre
a frente russa, outros sobre a frente na França - e eram publicados
na íntegra por todos os jornais."
Durante os quatro anos que durou a chamada Grande Guerra, Julio Mesquita
reunia as informações que lhe chegavam e, toda segunda-feira,
fazia uma reportagem comentada sobre os acontecimentos. Ligava um fato
ao outro e os acrescia com suas análises, dando ao leitor do jornal
aquele algo mais que caracteriza as boas publicações dos
tempos contemporâneos. Era algo absolutamente inédito no
jornalismo de então. "Essa era a grande diferença da
cobertura publicada pelo Estado em relação aos demais jornais
brasileiros", diz Ruy. Os textos sobre o primeiro ano da Grande Guerra
foram reunidos por amigos do autor e publicados à sua revelia,
num volume que permanecia dormitando nos arquivos do jornal. "Quando
eu descobri este livro, a primeira coisa que fiz foi mandar um exemplar
para o Lapouge (Gilles Lapouge, correspondente do jornal em Paris), antes
mesmo de recolher o restante do material, nos arquivos do jornal."
Lapouge maravilhou-se com o texto, sobretudo pela 'amarração'
que Julio Mesquita dava a seus boletins e pelo ineditismo que representou
no jornalismo mundial. Confessou a Ruy que não conhecia nenhum
trabalho semelhante na imprensa da época, mas apenas relatos de
jornalistas que estiveram nas frentes de combate, cada um tratando de
'sua guerra'. "Na verdade, eram várias guerras, sem a menor
coordenação jornalística, até mesmo no aspecto
militar", diz Ruy. "Meu bisavô conseguiu juntar estes
fatos, amarrá-los e explicá-los. Fazia uma espécie
de parêntese no decorrer de suas reportagens para explicar a razão
dos acontecimentos. Sua visão do mundo é surpreendente,
porque ele foi educado no Brasil. Mas lia muito, falava francês
e certamente lia em inglês e alemão."
O resultado são os quatro volumes que a partir desta semana estarão
nas livrarias.
A terra de Goethe
Na página 71 do primeiro volume, Julio Mesquita comenta a destruição
impiedosa da cidade belga de Louvain pelas tropas alemãs e manifesta
seu espanto por tal ato ter partido de um povo civilizado:
"Aquilo não é da Alemanha, da culta Alemanha, da terra
de Kant e de Goethe.
Aquilo não é da raça que produziu Beethoven, Bach
e Wagner. Aquilo é de cafres. Não se aceita que tenha caído
em delírio de tão baixa e grosseira animalidade gente que
se criou e se desenvolveu, através de todas as rudes vicissitudes
da existência, com os olhos sempre fixos em nuvens de tão
alto e tão róseo, de tão puro e tão doce idealismo.
Não é capaz de tal brutalidade o povo cuja ciência
e humanidade deve um Leibnitz e de cuja arte desabrochou, como imperecível
flor de resignação e meiguice, o vulto cândido e loiro
de Margarida."
Um jornal com alma
O bisneto Ruy comenta: "Você vê o conhecimento profundo
que ele tinha da Alemanha, para não misturar o povo alemão
com o militarismo de seu governo da época. Essas observações
foram o que mais me tocaram. Eu pude ver aí como era a cabeça
desse homem, compreender por que ele deixou toda essa herança,
que perdura aqui dentro até hoje. Começa ali a nossa herança
intelectual, que o jornal começa a ser moldado, o que fazemos até
hoje. Eu não acredito que um jornal não tenha alma. Um jornal
tem de ter alma. Um jornal que não tem alma é como uma coisa
qualquer, é como uma fábrica de salsicha. E é isso
que fez a distinção do Estado. Por essas coisas é
que resolvi também editar este livro. O que a gente vê, hoje,
são marqueteiros inventando história que o jornal não
escreveu. Há pouco tempo, vi várias campanhas dizendo sobre
o tempo dos militares, de 1964 a 1985, em que endeusavam um jornal que
se omitiu durante 21 anos, o que não é o nosso caso."
A ameaça do pensamento único - Os comentários paralelos
à narrativa da guerra enriquecem o texto de Julio Mesquita. Na
página 142, por exemplo, ele adverte sobre a ameaça representada
por quem pretende "organizar" a sociedade sob o pensamento único
ditado pelo Estado:
"No regime da organização, não há jornalismo
possível, porque os jornais vivem das informações
que transmitem aos seus leitores, e as informações valem
tanto quanto se aproximam da verdade. Vivam os individualistas! É
deles que nos vem a vida, é com o auxílio deles que vamos
criando e aumentando a nossa força e o nosso prestígio.
Povos individualistas são os que, como se sabe, não se escravizam
à onipotência e onisciência do Estado.
São os que, mesmo nas suas crises supremas, não vão
até o abandono total dos seus foros. São os que exigem que,
em caso algum, o Estado os aniquile. São os que nunca perdem o
direito de fiscalizar a ação do governo. São os que
querem que os governos sejam fiéis nos seus relatórios.
São os ingleses, são os franceses e, por dever de aliança,
também são agora os russos selvagens.
São os que anunciaram ao mundo as grandes derrotas que os alemães
lhes infligiram no começo da guerra. São os que hoje nos
pedem que não acreditemos no otimismo sistemático dos súditos
do kaiser, nas suas apregoadas vitórias, cujo resultado há
muito tempo ninguém vê..."
Aula de história
Não existe nada semelhante na literatura da Grande Guerra, como
a obra que chega hoje aos leitores.
Trata-se de uma aula de história, enriquecida pelas explicações
do professor de história militar da Unicamp, Fortunato Pastore,
e pelo prefácio do jornalista Gilles Lapouge. Além da biografia
feita pelo escritor Jorge Caldeira. Num texto elegante, onde a clareza
do raciocínio se junta à riqueza cultural do autor, Julio
Mesquita procurava levar os leitores do Estado a entender o conflito e
a corrigir seus arroubos, "ora otimistas, ora pessimistas",
sobre as notícias vindas das frentes de batalha. Em seus "Boletins
da guerra", ainda que estivesse a milhares de quilômetros dos
países em luta, documentado apenas pelos telegramas diários
e pelas revistas e jornais europeus que chegavam com atraso à redação,
o então diretor do Estado compôs um trabalho comparável
ao de um historiador. Ruy Mesquita Filho realça que seu bisavô
fazia 'sacações' absolutamente originais para a época.
"Ele foi premonitório", diz seu bisneto paterno. Em seu
último boletim, datado de 14 de outubro de 1918, ao comentar o
armistício, Julio Mesquita adivinhava o papel que os Estados Unidos
da América iriam desempenhar no mundo a partir da vitória
aliada:
"Em todo caso, temos para garantia (do armistício) a lealdade
insuspeita e já demonstrada do ilustre chefe da democracia norte-americana,
voto decisivo nas próximas conferências, como o foi neste
melindroso incidente de comovente transição. Convém
não esquecer que a glória dos soldados dos povos livres
não se mede pela altura dos montes de cadáveres no chão
dos combates, e que, ao apelo da Alemanha, o presidente dos Estados Unidos
(Thomas Woodrow Wilson, do Partido Democrata), homem de rigorosa educação
jurídica como que, de um instante para outro, deixou de ser o chefe
apaixonado de uma nação beligerante, surgindo em seu lugar,
por algumas horas, o árbitro de uma pendência que se regula
pelas leis da honra, na guerra mais severas que na paz.
Daqui por diante, a toga escorrega dos ombros do magistrado e entra em
ação o combatente. Aguardamos as próximas conferências
em perfeita tranqüilidade de ânimo, e, noutras seções
desta folha, acompanharemos as suas deliberações, à
luz do mesmo critério que até aqui nos tem guiado. Somos
homens, e o célebre verso latino, uma vez lido, nunca mais nos
saiu da memória: não queremos ser estranhos às coisas
humanas, principalmente às que, com tanta evidência, põem
em jogo os altos destinos da humanidade.
Somos brasileiros. Vimos a nossa terra quase nas garras de uma casta de
assalto e de rapina, e o seu futuro ainda nos enche de apreensões,
quando por mais não seja, por nos parecer inevitável que
ainda tarde o dia, prometido por Wilson, em que os fracos valham tanto
quanto os fortes. O pangermanismo por terra, somos, sem ameaças,
um povo independente. Resta que o saibamos ser no concurso internacional,
incruento e civilizador que se vai abrir."
Arrogância sem surpresa
Para Ruy Mesquita Filho, a arrogância do governo George W. Bush,
"que ignora a ONU e se pretende o xerife do mundo", certamente
não seria uma surpresa para Julio Mesquita. "Ele já
entendia que as nações, tanto as ricas como as pobres, teriam
de dispor de um foro, onde todas elas pudessem ser tratadas da mesma forma.
Hoje, estamos vendo a repetição do filme, embora não
possamos dizer que os Estados Unidos sejam a repetição daquela
Alemanha, mesmo porque seu regime não o permite. Mas, se o Bush
pudesse, ele faria como o kaiser."
Herança do conflito
Em sua nota explicativa, que abre o primeiro volume, Ruy Mesquita Filho
destaca que a Grande Guerra representou o desmoronamento de grandes impérios
coloniais e a configuração de uma geografia política
muito parecida com a atual. "No final, apesar da vitória dos
países que lutaram por um mundo livre e democrático, a Europa
mergulhou no obscurantismo com o advento do comunismo soviético
e de todos os ismos que foram surgindo para combatê-lo: fascismo,
nazismo, franquismo, salazarismo. Só muito depois, nos anos 80,
com a queda do Muro de Berlim, é que a Europa conseguiria livrar-se
de todos esses males", escreveu.
Nesta sua entrevista ao Estado, Ruy Mesquita Filho acentua que Julio Mesquita,
em seus boletins, desculpa-se pela falta de conhecimento que tinha sobre
o que estava acontecendo na Rússia, o que o impediu de prever a
ascensão de Lenin, e as conseqüências da revolução
bolchevique de outubro de 1917. "O que se passava na Rússia
era um acontecimento absolutamente novo, um enigma. Além de virem
poucos telegramas de Moscou, a maioria deles censurados pelos ingleses,
quando falava da Rússia, ele dizia que "com a revolução,
talvez se tenha aberto para os Aliados uma crise muito séria. A
Rússia é um imenso mistério, e o desconhecido incute
medo".
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